Tem uma mulher na minha churrasqueira

Na semana da mulher tenho visto muitas discussões sobre o trabalho que desempenhamos e as diferenças. Resolvi compartilhar a minha história e sobre como encaro viver em um universo tão masculino e muitas vezes, ainda machista.

Não me importo com o cheiro de fumaça no cabelo nem em todas as minhas roupas, um bom banho, bons produtos de beleza, higiene e uma sacolinha plástica para separar as roupas na mala já resolvem isso rapidinho. Unhas feitas é um luxo, então faço logo no começo da semana porque sei que no sábado tem evento, o calor, a humidade e as luvas vão estragar tudo, mas e daí?

Sabe o que eu mais amo no carvão? Além do calor e sabor que ele dá na carne quando está em brasa, é que sai tão facinho das mãos. E a carne, ahhh essa é o maior amor da minha vida. Não vivo muitos dias sem sentir ela nas minhas mãos, muito menos sem extrair o máximo de suculência dela para explodir de sabor na minha boca no meio de qualquer tarde de segunda-feira.

Eu estudei (muito) na vida. Conquistei todos os certificados e títulos que eu quis, no entanto foi no fogo que eu encontrei sentido para meus dias. É nele que eu tenho paixão para continuar estudando todos os dias, e é assim que eu tenho a impressão que não preciso mais trabalhar na vida, porque já tenho o melhor trabalho do mundo.

Já estive em evento em que um homem se indignou por eu, “uma menininha”, como ele dizia, estar entre grandes nomes assando ali e ele não. O cara invadiu minha estação, pegou minhas facas e me ameaçou. Já tive situações onde um grande e querido patrocinador meu não me deixou chegar perto da churrasqueira na casa dele. Eu sirvo para divulgar, mas não para fazer churrasco?

Culturalmente no Brasil, todo homem é um excelente churrasqueiro, e lidar com esse ego é algo extremamente delicado. Não existe churrasco certo ou errado, existem técnicas e estilos diferentes, e eu comecei a lidar com isso dentro da minha casa.

Sou carnívora desde criancinha, vivia me engasgando com carne, haha. Minha maior referência de churrasco sempre foi o meu pai, antes de Francis Mallmann e Jeferson Finger. Tradicionalmente nos domingos eu só saía da cama quando o clima de churrasco em casa vinha me buscar. Quando fui no Bárbaros BBQ pela primeira vez, eu conheci um universo de sabor e maciez que nunca imaginei que pudesse existir em uma carne, e a única coisa que passava pela minha cabeça na hora era: meu pai precisa provar isso! Comecei a estudar e aprender a fazer essas técnicas sempre em dias de semana para não afrontar meu pai, o churrasqueiro oficial, e aos poucos notei que ele observava minhas técnicas e usava elas no nosso churrasco de domingo. O bife foi virando steak, o sal grosso nunca mais saiu do armário, (dei um pote de sal de parrilla da Cantagallo pra ele), o braseiro é mais forte, e ele agora me acorda mais cedo pra perguntar o que vamos fazer com tal carne hoje. Assim voltamos a ser melhores amigos de novo, unidos pelo fogo.

Escolher encarar o churrasco profissionalmente foi escolher viver em uma atmosfera que grande parte do tempo é de alegria, amizade, celebração. Hoje eu trabalho com grandes amigos, que me apresentaram o churrasco e me tornaram churrasqueira, sem me olhar como “café com leite”. Eu sempre amei desafios, encarei um BBQ Brasil e mostrei pra quem quiser ver que eu não só posso fazer churrasco sem deixar de ser a Helô toda vaidosa por essência. E se a maquiagem sair toda por conta do calor, não tem problema. O churrasco deu sentido a tudo o que eu sonhei e estudei na vida, e fica mais rico ainda quando eu recebo o respeito e o carinho das pessoas que vêm falar comigo à respeito. Hoje eu recebo tanta sugestão e perguntas técnicas. Discuto sobre qualidade de carne, raças bovinas, tipos de cortes e técnicas de cocção nos directs de Instagram que antigamente eram tão vazios. Hoje eu aprendo com todo mundo e ensino um pouquinho também.

Já fui muito discriminada por fazer churrasco de shorts, bota, maquiagem. E calei a boca de cada um deles quando viram o meu profissionalismo trabalhando duro, do começo ao fim. Como já se diz há muito tempo, lugar de mulher é onde ela quiser. Eu nunca me preocupei se o que eu ia fazer era pra homem ou pra mulher, como nunca olhei etiqueta de roupa pra ver tamanho. Se me servir e eu amar, eu vou vestir e vou fazer. O churrasco serviu, eu amei e estudo e trabalho muito para não precisar de cota. Qualquer pessoa é capaz de fazer o que quiser, desde que se prepare para isso. Mulheres não precisam de cota, nós só precisamos de respeito para conquistar o mundo enquanto os homens se preocupam em dominá-lo.

Hoje a maior alegria da minha vida é assistir de perto as pessoas conhecerem e se encantarem com um novo mundo do churrasco pelas minhas mãos, e eu passo a maioria das horas do meu dia estudando receitas novas para servi-los melhor a cada dia.