Meu Comfort Food

Tem gente que nasce na cozinha, né? Mas esse não é o meu caso. Enquanto elas cozinhavam eu fugia de medo do gás. Medo não, pavor. Algum trauma de infância que eu não fique à vontade em compartilhar.

Minhas amigas sabiam fazer arroz, mas minha mãe fazia o melhor do mundo. Feijão? Isso é coisa da tia Jaine, e nada nunca vai chegar perto disso. Bife??? Ahhhh vó, seu fogão a lenha, sua chapa de ferro e a melhor lembrança da vida, meu comfort food.

Agora escrevendo, acho que fui bem mimadinha. Tenho na família as melhores cozinheiras que esse mundo já viu passar, e sempre fui muito mimada por elas. Minha mãe dispensa todas as apresentações. Sabe aquela que faz tudo o que quer e fica perfeito? Mas ainda não o suficiente para a crítica dela.

Minha avó, ahhh a dona da geração e, com o perdão da palavra, da porra toda. Ninguém nesse mundo cozinhou como essa mulher. Ela tinha seu fogão à lenha por grande parte da nossa vida. Ela matava porco, destroncava galinha, tudo ali no nosso quintal da fazenda (que não era nossa, não se iludam com meu bom gosto). Durante os meus 32 primeiros anos de vida ela esteve, todos os dias, do meu lado. Ela fazia sonho (bolinho), porque meu irmão gostava, e o melhor doce de abóbora que já existiu porque eu amava desde meus primeiros meses de vida. Ela foi minha companheira, minha inspiração e o maior amor da minha vida. Eu sinto tanto por ela não ter tido tempo de conhecer a tal versão da “Lolinha” que vos fala.

Dois meses depois que ela partiu meu mundo virou, oportunidades surgiram e me fizeram descobrir que eu tinha mais dela, mais da minha mãe, do que qualquer pessoa podia imaginar. Primeiro me apaixonei pela sensação da carne na minha mão, depois pelo que a brasa faz com os alimentos, e agora pela possibilidade de misturar tudo que eu achar que devo e resultar em algo mágico, simples, carregado de amor, história e lindas energias: a comida!

Como a gente não percebe tudo o que leva o arroz, feijão e o bife de cada dia? Como tudo que fazemos na vida leva energia, paixão, história, estudo, vivências, e enfim, viram algo real que nos enchem a alma de conforto, de Comfort Food.

Acho que talvez eu não era tão desconexa assim com meu universo. As experiências nos ensinam, e de uma forma tão única, nossa e maravilhosa. Viver e comer nos ensina a cozinhar, e cozinhar é expressar amor, saudade, e a tal da “saudade do que a gente nem viveu”. É se conectar com quem prova, e essa conexão me proporcionou a melhor sensação da minha vida.

Eu já fui um Instagram. Aquelas blogueirinhas que só comem, malham, cuidam do corpo, do lindo cabelo loiro e das tendências de moda que nem são tendências mais, mas estão pagando. Essa vida aí que nem existe. O dia que hackearam meu Instagram eu achei que tivesse acabado minha vida, até porque vida é aquilo que a gente compartilha e tem muitos likes e followers, né? Errado! A minha vida blogger me trouxe até aqui. Não julgo quem faz e faria tudo de novo se soubesse o quanto de valor e descoberta ela colocaria na minha vida. Foi ela que me fez ser convidada à um Bárbaros. Lá conheci amigos e pessoas que vivem comigo até hoje. Algumas delas me ensinaram a fazer churrasco, outras mostraram que algumas querem te ver bem, mas não melhores que elas. A real é que ninguém podia imaginar que por trás da blogueirinha tinha uma mulher que ralou demais na vida, e que ralaria de novo se descobrisse algo que a desafiasse.

Followers, Likes e Instagram me levaram pra TV. Era só pra desfilar, mas acabei fazendo churrasco, me apaixonando por ele, evoluindo como ser humano e como, quem sabe um dia, uma cozinheira. Um amigo me convidou pra ser chef de estação em um evento (vai saber o que esse Dori tinha na cabeça, mais louco que eu que aceitei), e amigos me apoiaram a aceitar e tentar. Lá eu descobri que eu queria fazer aquilo todo dia da vida, ou todo sábado. E os anjinhos disseram amém!

Tratei de ir estudar, aprender com os melhores, estudar os melhores. Aprendi a segurar uma faca na cozinha do Francis Mallmann, assim como prender fogo com a lenha úmida embaixo da neve. Aprendi que a mágica que eles faziam lá era combinar a simplicidade das coisas com o poder da brasa. Aprendi a dominar e me apaixonar (de novo) pelo fogo. Me apaixono de novo de lembrar.

Quando comecei a misturar ingredientes tudo começou a fazer sentido. Aprendi que tudo que eu vivi na vida me trouxe para onde eu estou agora, e que provavelmente esse lugar ainda é bem longe de onde eu vou chegar. E enquanto termino de preparar um “caldinho da segunda” pra minha mãe, eu tive a alegria de viajar numa história que é repleta de gente, de paixão. Pessoas que me acompanham lá no Instagram até hoje, e que podem se conectar comigo através do carinho que passo pra minha comida nos eventos. Pessoas que vão chegar do trabalho já já e ainda estão se surpreendendo, como eu, com as coisas que eu to aprontando. E do quanto minha vida se resume em um termo de modinha (mais uma hashtag): Comfort Food.

Com muito amor e lágrimas com gostinho de sal, saudade e boas lembranças.